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Da negligência ao renascimento: após décadas de abandono, a Madeira-Mamoré volta a pulsar em Porto Velho

Foi nesse cenário que a gestão de Léo Moraes assumiu, no início de 2025, e expôs o óbvio que faltava: compromisso regular de administração. Logo na posse, a prefeitura extinguiu a cobrança de ingresso para moradores no museu da EFMM, derrubando a barreira de R$ 30 que afastava a própria comunidade do acervo. O gesto simples devolveu à população o direito de acessar a história local e recolocou a ferrovia no horizonte da cidade. Em seguida, vieram iniciativas que, somadas, produziram mudança de clima: a reativação dos passeios da litorina — hoje em um trecho curto e interno ao Complexo, com caráter turístico e educativo — recolocou famílias diante de um equipamento que há muito estava parado; o Complexo voltou a receber visitantes; mutirões de limpeza foram realizados no acesso à Candelária; e eventos como “Uma Noite no Museu” transformaram o espaço em palco de experiências guiadas, aproximando o público de personagens e fatos que estruturam a memória de Porto Velho.

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O ponto alto deu-se no aniversário de 111 anos da cidade, quando a Locomotiva 18, a “Barão do Rio Branco”, voltou a apitar após mais de duas décadas imobilizada. O breve deslocamento dentro do Complexo teve valor maior que o trajeto: foi a prova concreta de que a ferrovia pode renascer quando tratada com seriedade técnica. Ex-ferroviários e moradores se emocionaram. Maria Auxiliadora Lobo, que trabalhou por mais de 30 anos na EFMM, sintetizou o sentimento ao afirmar: “Eu sempre sonhei com esse momento”. A fala se conectou a outra dimensão do resgate: não é espetáculo, é reparação cívica. A prefeitura, por sua vez, reiterou que esse “era um desejo debatido desde o início da gestão”, com a meta explícita de valorizar e cuidar do patrimônio histórico que deu origem à cidade.

O contraste é inevitável. Décadas de omissão corroeram o patrimônio físico e simbólico; meses de ações básicas revelaram que nunca foi preciso esperar por soluções mirabolantes. Bastava reconhecer a EFMM como dever institucional e tratá-la com planejamento, parcerias e rotina de manutenção. Ainda há limites e desafios — a deterioração acumulada, as cheias do Madeira que exigem prevenção, a necessidade de sustentar orçamento e equipe qualificada —, mas o eixo se moveu. Porto Velho reencontra sua ferrovia, não como peça decorativa, e sim como referência de identidade, educação e turismo.

Preservar a EFMM não é luxo nem nostalgia: é compromisso com a origem da cidade. O silêncio do poder público, no passado recente, negou essa história e diminuiu o orgulho coletivo. O retorno do apito da Locomotiva 18, a gratuidade do museu, os passeios e as ações de limpeza mostram que, quando a administração faz o mínimo que se espera, a memória volta a ter voz. O desafio agora é garantir continuidade, blindar o patrimônio contra o improviso e impedir que novos ciclos de abandono calem, outra vez, a história que fez Porto Velho existir.

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