Modern technology gives us many things.

TRE manda Exame corrigir números de Hildon e Fúria; Pagani abraça discurso intolerante de extrema-direita; e pesquisas viram alvo

A íntegra da coluna redigida por Robson Oliveira

RESENHA POLÍTICA

ROBSON OLIVEIRA

PRUDÊNCIA

Embora haja profissionais contratados pelos comitês eleitorais empenhados em disseminar a tese de que a eleição termina no primeiro turno, esta coluna prefere manter alguma distância dos alquimistas das urnas. A leitura, neste momento, é de que o segundo turno continua sendo uma possibilidade concreta e, se acontecer, deverá produzir uma campanha ainda mais dura, pesada e recheada de alianças, mudanças de posição e eventuais traições.

SOLIDEZ

Os números oficialmente divulgados até aqui são confortáveis para Marcos Rogério. É uma constatação baseada nos levantamentos conhecidos, não uma decisão sobre o resultado. Na leitura desta coluna, o candidato do PL chega à reta final em posição suficientemente sólida para que a principal dúvida, neste momento, seja menos sobre sua presença no segundo turno e mais sobre quem estará do outro lado.

DISPUTA

A disputa pela segunda vaga, entretanto, permanece aberta. Adailton Fúria e Hildon Chaves têm espaço para crescer, cada um a partir de realidades eleitorais diferentes. Fúria precisa sustentar sua posição e recuperar eventual terreno perdido; Hildon, por sua vez, mostra sinais de reação na capital e precisa transformar essa vitalidade em votos suficientes para alterar a fotografia final. Mas Fúria , independente dos problemas na administração da campanha, é bom de urna.

TEMPO

Os últimos dias são sempre um território perigoso para prognósticos definitivos. Candidato pode crescer, estacionar ou perder espaço. O relógio, portanto, será particularmente importante para quem precisa acelerar a campanha e converter exposição em voto. O tempo até domingo é curto para viradas bruscas e o número de indecisos começa a diminuir.

POSTURA

Hoje à noite tem debate na TV RO, afiliada à Globo. Quem errar menos sai ileso. Será um debate quase protocolar, com regras definidas e pouco espaço para improvisos sem nexo. Não se trata propriamente de uma prova para descobrir quem é o mais preparado ou o mais eloquente. O eleitor observa propostas, respostas, postura e outros critérios subjetivos que dificilmente cabem em uma pesquisa.

SAÚDE

A saúde tende a chamar atenção especial. A crise enfrentada pelo setor em Rondônia transforma o tema em teste obrigatório para os candidatos. Promessas genéricas podem soar como música velha para quem enfrenta diariamente as dificuldades do sistema.

ESTRATÉGIA

O debate no padrão Globo pode não alterar significativamente a urna, mas pode expor as fraquezas de um candidato. Em uma eleição incerta, às vezes não é necessário produzir um grande acontecimento. Basta mostrar uma fragilidade que estava escondida. Estratégia neste debate funciona. Basta jogar com as regras.

HABILITADO

Marcos Rogério, pelos números oficialmente divulgados até aqui, parece ter construído uma margem confortável. Para esta coluna, a questão principal da reta final é saber quem conseguirá chegar até ele. A resposta, como sempre, pertence ao eleitor e será dada somente quando as urnas fecharem.

CORREÇÃO

A decisão do TRE-RO merece uma leitura menos passional do que a própria campanha eleitoral. O juiz auxiliar Rinaldo Forti não mandou censurar a imprensa nem retirou do ar a matéria da Exame. Fez algo mais prosaico e, justamente por isso, mais importante: mandou corrigir o que, no confronto entre texto e painel, aparece como erro objetivo.

DIVERGÊNCIA

A matéria publicada pela Exame em 27 de setembro afirmava que Hildon Chaves tinha 25,60% e estava em segundo, enquanto Adailton Fúria aparecia em terceiro, com 12,34%. O problema apontado na decisão é que o próprio painel estatístico associado à reportagem atribuía os 25,60% a Fúria e os 12,34% a Hildon. Além disso, havia divergência entre os 30,50% estampados na manchete para Marcos Rogério e os 30,90% indicados no painel.

DESCOMPASSO

Não é exatamente uma discussão sobre interpretação de pesquisa. É uma discussão sobre quem ficou com qual número. E número eleitoral, quando chega à reta final, não é mero enfeite gráfico. Pode alimentar expectativa, voto útil, euforia de militância e, principalmente, aquela velha síndrome brasileira de transformar pesquisa em campeonato antes de contar os votos. O resultado publicado ficou em descompasso com a forma utilizada como agregador.

CUIDADOS

O TRE foi cuidadoso ao estabelecer a fronteira. Reconheceu a liberdade de imprensa e deixou claro que a intervenção judicial deve ser excepcional. Não determinou a retirada da reportagem nem proibiu a Exame de publicar análises, resultados ou explicações metodológicas. Determinou que o veículo corrija os dados ou explique tecnicamente a divergência. E fez o mesmo com as reproduções nas redes sociais.

SOFISTICAÇÃO

Há uma ironia adicional nessa história: o próprio agregador da Inteligov/Exame utiliza uma metodologia sofisticada, com média móvel ponderada e pesos diferentes conforme a natureza e a atualidade das pesquisas. Quanto mais sofisticado o mecanismo, maior deveria ser o cuidado elementar de conferir se o texto está conversando com o gráfico.

POLÊMICA

Na política, um ponto percentual já produz discurso de vitória. Dois produzem carreata. Cinco viram argumento de autoridade. E, aparentemente, trocar dois candidatos de lugar pode produzir uma pequena tempestade eleitoral.

REGRA

A decisão, portanto, não é uma sentença sobre quem está melhor ou pior na eleição. É uma sentença provisória sobre a necessidade de que informação eleitoral seja coerente com a própria fonte que a publica. No jornalismo, existe uma regra antiga que continua valendo mesmo na era dos agregadores, algoritmos e gráficos coloridos: antes de publicar o número, confira o número.

FAKE

Porque pesquisa errada não vira verdade por estar diagramada em página bonita. E, na semana da eleição, um erro de digitação pode ganhar a velocidade de uma verdade fabricada.

ATENTO

Foi o jornalismo atento de Rubens Coutinho, do Tudo Rondônia, que colocou a lupa onde outros passaram os olhos. Ao confrontar os gráficos do agregador com a conclusão publicada, o jornalista percebeu que os números não fechavam e que Hildon Chaves e Adailton Fúria haviam trocado de posição no texto. O TRE-RO confirmou a inconsistência objetiva.

PROFISSIONALISMO

Um erro imperdoável para quem publica pesquisa eleitoral: antes de escrever o número, é preciso conferir o número. E, neste caso, foi preciso um jornalista rondoniense fazer o dever de casa que o jornalismo profissional exige.

AFERIÇÃO

A pesquisa eleitoral virou uma profusão de números díspares que deixa o eleitor atônito, sem saber qual delas erra mais. Há quem sugira escalar o mais longevo pesquisador de Rondônia, José Juvenil, proprietário da Phoenix, que ainda circula com sua inseparável pasta debaixo do sovaco, para aferir, com a precisão que lhe é peculiar, qual dos institutos consegue errar menos entre sete prognósticos.

DISPARIDADES

Cada pesquisa divulgada revela dados tão incomuns para uma campanha feia, silenciosa e com o eleitor apenas observando que fica difícil apostar quem poderá ser o próximo governador. Pesquisa é uma fotografia do momento, repetem como mantra os profissionais do marketing eleitoral. O problema é que, em Rondônia, algumas fotografias conseguem a proeza de trocar até os personagens de lugar. As pesquisas não batem faz tempo. Ainda assim, candidatos e seus asseclas comemoram cada levantamento como se fosse fim de campeonato, desde que o próprio nome apareça na frente. Há até pesquisa que já decidiu a eleição, decretou o vencedor e mandou o segundo turno para o arquivo antes que as urnas tenham oportunidade de se manifestar.

MANIPULAÇÃO

Faz parte da história eleitoral. Mesmo sendo, muitas vezes, inútil como instrumento de manipulação da realidade, a pesquisa autorizada pelo candidato é imediatamente transformada em combustível para a militância e munição para as redes sociais. Afinal, na internet o pau canta, e a verdade costuma ser a primeira a abandonar o recinto.

PROVA

Pesquisa errada, consciente ou não, é o que mais existe no mercado. Por isso, torço para que algum comitê eleitoral contrate Juvenil e coloque sua Phoenix para fazr a prova dos nove, aferindo os números reais da eleição. Seria uma espécie de certificado de autenticidade. E, neste caso, o erro provavelmente seria a única coisa que ninguém ousaria contestar. Afinal, todos conhecem a expertise da Phoenix. Se erramos, pelo menos não haverá surpresa.

CONTEÚDO

O jovem vilhense Dhonaton Pagani, candidato a deputado federal pelo Podemos, precisa decidir se pretende ser um candidato com propostas exequíveis para Rondônia ou apenas mais um personagem fabricado para as redes sociais. Ex-vereador de Vilhena, é articulado, fala razoavelmente bem e tem uma comunicação de entonação pausada e serena. O problema está menos na voz e mais no conteúdo.

PERSONAGEM

Pagani abraçou um discurso de extrema direita, intolerante e religiosamente doutrinário, no qual o adversário político parece ocupar o lugar reservado ao demônio. Em alguns vídeos publicados nas redes, diálogos dentro de um carro com amigos parecem cuidadosamente construídos para apresentar ao eleitor uma espécie de “Nikolas rondoniense”, numa alusão ao deputado mineiro Nikolas Ferreira, fenômeno digital da direita brasileira.

IDENTIDADE

A comparação, entretanto, termina onde começa a realidade eleitoral. Nikolas construiu durante anos uma identidade política própria, com enorme exposição nacional e milhões de seguidores. É uma figura consolidada no ambiente digital e chega à eleição com capital político que dispensa apresentações. Pagani, por enquanto, está tentando vestir uma roupa que ainda não lhe serve.

ÍDOLO

Os dois se encontraram no último domingo, em Ji-Paraná, durante evento organizado pelo candidato ao Senado Bruno Bolsonaro Scheid. Na fotografia, a satisfação estampada no rosto do jovem vilhense ao lado do seu ídolo é quase uma legenda. Parece ter encontrado ali o molde do personagem que pretende interpretar em Rondônia.

VERSÃO

Mas política não é concurso de cosplay ideológico. Macaquear o ídolo mineiro não transfere automaticamente seus seguidores, sua popularidade ou sua votação para o candidato rondoniense. O eleitor pode até admirar o personagem importado, mas isso não significa que queira comprar a versão local.

POP STAR

Pagani parece acreditar que basta reproduzir a liturgia política de Nikolas para transformar-se em um deputado pop star. A urna, contudo, costuma ser menos generosa com personagens do que as redes sociais. Ali não há edição, trilha sonora nem amigos dentro do carro para reforçar o roteiro.

RESULTADO

Depois da apuração, o jovem vilhense talvez descubra uma velha regra da política: personagem chama atenção, mas é a identidade própria que cria eleitor. E, para conquistar votos em escala, não basta parecer com alguém que já chegou lá. É preciso convencer o eleitor de que existe alguma razão para votar no original da terra. Estamos a falar sobre identidade. E o eleitor vota no candidato, não no personagem.

Autor: | Fonte: www.rondoniadinamica.com

Relacionado
Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.