A Arca de Noé não foi encontrada. Desde a semana passada, sites e redes sociais passaram a divulgar que os restos da embarcação bíblica teriam sido localizados na Turquia. O que existe, de fato, é uma pesquisa em andamento na Formação Durupınar, perto do Monte Ararat, onde uma equipe coletou fragmentos de cerâmica e amostras de solo. Os resultados ainda não foram publicados, e as conclusões estão previstas para 2027.
O que os pesquisadores fizeram
A Formação Durupınar é uma estrutura em formato de barco identificada em fotos aéreas em 1959 e batizada em homenagem ao cartógrafo turco İlhan Durupınar. Ela tem cerca de 164 metros de comprimento, medida próxima da descrição da arca no livro de Gênesis. Em 2026, uma nova equipe retomou os estudos no local, com equipamentos de varredura do subsolo.
Na etapa mais recente, os pesquisadores coletaram novos fragmentos de cerâmica e cerca de 1.000 amostras de solo em aproximadamente 150 pontos da formação. O material foi enviado a Ancara, capital da Turquia, para análise em laboratório. O objetivo é verificar se há matéria orgânica e possíveis vestígios de madeira.
A equipe também informa ter encontrado, em amostras de solo coletadas dentro dos contornos da formação, níveis de carbono mais altos do que em amostras retiradas a poucos metros de distância. Esses resultados preliminares ainda precisam ser confirmados.
O que ainda não se sabe
A equipe do projeto, chamado Noah’s Ark Scans, não anunciou confirmação científica de que a formação seja a Arca de Noé. As perfurações mais profundas, que podem trazer amostras mais conclusivas, começaram em setembro de 2026, e os resultados completos ainda não foram divulgados.
Um dos integrantes da equipe, identificado como Jones, afirmou que o grupo acredita que a formação seja a arca e, por isso, quer testá-la cientificamente.
O objetivo é “submetê-la aos testes científicos mais rigorosos que pudermos realizar”.
— Jones, integrante da equipe de pesquisa, em tradução publicada no Brasil
Ou seja: é uma hipótese que os pesquisadores querem testar, e não uma conclusão já alcançada.
De onde veio o “100% confirmada”
Parte dos textos que circulam no Brasil reproduz uma reportagem do tabloide britânico Daily Star, segundo a qual os especialistas teriam “confirmado 100%” a descoberta. A afirmação não corresponde ao que a equipe divulgou.
Outros sites usaram títulos como “arca pode ser descoberta em breve” ou “pesquisadores encontram fragmentos”. Essas versões estão mais próximas dos fatos, mas também tratam como iminente um resultado que ainda depende de análise laboratorial.
O que diz a geologia
A hipótese de que a Formação Durupınar seja a arca é antiga e contestada. Um estudo de 1996, feito pelo geólogo Lorence G. Collins com o pesquisador David Fasold, concluiu que a formação é um sinclinal, uma dobra natural nas camadas de rocha. Fasold havia defendido antes a teoria da arca e mudou de posição depois do estudo.
Perto dali, na vila de Kazan, grandes pedras com furos nas pontas, conhecidas como “pedras de âncora”, também foram associadas à arca pelos exploradores Ron Wyatt e David Fasold. Essa interpretação nunca foi confirmada por estudos científicos independentes.
Como a Bíblia descreve a arca
O relato está nos capítulos 6 a 9 do livro de Gênesis. Segundo o texto, Deus ordenou a Noé que construísse uma arca de madeira, revestida de betume por dentro e por fora, com três andares, uma porta lateral e uma abertura no alto para entrada de luz. A madeira é chamada no original hebraico de “gofer”, termo que aparece só nessa passagem e cujo significado exato é incerto. Algumas traduções o interpretam como cipreste ou como uma madeira resinosa.
As medidas bíblicas são de 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura. O côvado era uma medida antiga baseada no antebraço, do cotovelo à ponta dos dedos, e equivalia a cerca de 45 centímetros. Com essa referência, a arca teria cerca de 135 metros de comprimento, 22 metros de largura e 13 metros de altura. É mais longa que um campo de futebol oficial, que tem entre 100 e 110 metros, e a altura equivale a um prédio de quatro andares.
A diferença entre essas medidas e os 164 metros da Formação Durupınar é um dos pontos usados pelos críticos da hipótese. Os defensores respondem que existiam côvados maiores, como o chamado côvado real egípcio, de cerca de 52 centímetros. Com ele, a arca chegaria a cerca de 157 metros, mais próxima do tamanho da formação.
Segundo o relato, choveu durante 40 dias e 40 noites, e as águas cobriram a terra por 150 dias. No fim, a arca repousou “sobre os montes de Ararate”. A expressão está no plural, e muitos estudiosos entendem que ela se refere à região de Urartu, um antigo reino que ocupava áreas da atual Turquia, da Armênia e do Irã, e não necessariamente ao pico que hoje leva o nome de Monte Ararat.
Um relato mais antigo que a Bíblia
A história de um grande dilúvio e de uma embarcação que salva a vida não aparece só na Bíblia. Relatos parecidos existem em textos da antiga Mesopotâmia, alguns mais antigos que o livro de Gênesis.
O mais conhecido é a Epopeia de Gilgamesh, poema babilônico em que um personagem chamado Utnapishtim recebe a ordem de construir um barco, leva animais a bordo, sobrevive a uma inundação e solta aves para verificar se as águas baixaram, como Noé faz com o corvo e a pomba. Outro poema mesopotâmico, o de Atrahasis, conta uma história semelhante.
Em 2014, o Museu Britânico apresentou uma tábua de argila babilônica, estudada pelo especialista Irving Finkel, que traz instruções para construir uma arca redonda, no formato de um grande cesto, e cita os animais entrando “dois a dois”. Para os pesquisadores, esses paralelos mostram que a narrativa do dilúvio fazia parte da tradição de vários povos da região.
A arca que existe hoje
Enquanto a busca pela arca original continua, existe uma réplica em tamanho real. O Ark Encounter, parque temático inaugurado em 2016 no estado de Kentucky, nos Estados Unidos, reproduz a embarcação com cerca de 155 metros de comprimento, usando o côvado maior como referência. A construção, feita por um grupo cristão criacionista, virou atração turística e recebe visitantes de vários países.
Por que o tema volta sempre
A busca pela Arca de Noé combina fé, história e curiosidade, e por isso qualquer notícia sobre o assunto se espalha rápido. O relato bíblico diz que a arca repousou nos montes de Ararat depois do dilúvio, e a formação em forma de barco fica justamente nessa região.
Para quem crê, a fé no relato de Noé não depende de uma descoberta arqueológica. Para quem acompanha a ciência, a resposta virá das análises de laboratório e da revisão por outros especialistas. Até 2027, a única afirmação correta é esta: há uma pesquisa em curso, e a arca não foi encontrada.
Versão em áudio disponível no topo do post.
Autor: | Fonte: painelpolitico.com