LOBBY
O período entre a eleição e a posse do governador eleito, Marcos Rogério, costuma ser fértil para especulações sobre a futura equipe de governo. É quando os pretendentes a cargos públicos descobrem que a imaginação também pode ser um instrumento de promoção pessoal. Há quem use espaços amigos para plantar nomes, testar resistências e fabricar expectativas, mesmo quando os supostos escolhidos estão longe de reunir as condições mínimas para ocupar as funções anunciadas.
DESCARTANDO
Um exemplo crasso foi a especulação em torno de Marcelino Brasileiro para a chefia da Casa Civil. Embora a coluna desconfiasse de que a história não passava de um embuste pós-eleitoral, preferimos recorrer à fonte, em vez de alimentar o folclore dos bastidores. Perguntado pelo Resenha Política, o próprio Marcos Rogério negou ter tratado do assunto. Foi categórico ao situar o momento: a prioridade é reunir informações técnicas, examinar os dados da máquina pública e buscar soluções para os desafios que aguardam a futura administração. A composição do secretariado, segundo ele, ficará para mais adiante.
DESEJOS
A resposta põe freio na especulação, mas também expõe um velho hábito da política: há quem queira nomear antes mesmo de ser convidado. Nos bastidores, certos personagens distribuem cargos que não possuem, anunciam decisões que não existem e transformam desejos particulares em supostas escolhas do futuro governante.
CRITÉRIOS
Marcos Rogério, por enquanto, sinaliza que pretende começar pelo diagnóstico, não pela distribuição de cadeiras. É uma diferença importante. Governar exige estratégia; montar um governo exige critérios. O resto é lobby disfarçado de notícia, com os interessados soprando fumaça e esperando que alguém confunda a cortina com o incêndio.
SELETIVIDADE
Esta coluna já criticou duramente o senador Confúcio Moura, sobretudo durante seu governo em Rondônia, quando era incensado por setores políticos e bajulado por parcelas da imprensa. Agora, o mesmo personagem é demonizado por apoiar Lula, como se tivesse cometido uma heresia política. A memória seletiva, convenhamos, é uma das especialidades mais cultivadas na política.
POSIÇÃO
Não há incoerência no posicionamento do senador. Há muito tempo ele defende essa posição e integra a base de apoio do governo federal. O fato de seu MDB ter declarado apoio ao adversário de Lula não transforma, automaticamente, sua escolha pessoal em contradição. Partido não é convento, e disciplina partidária não deveria exigir a renúncia ao pensamento individual. As suas escolhas o eleitor que avalie caso um dia retorno a ribalta política – algo improvável.
PRECAUÇÃO
Confúcio também decidiu não disputar a eleição. Experiente, provavelmente avaliou os riscos de uma derrota, diante de circunstâncias eleitorais que não lhe eram favoráveis. Ao desistir, preservou uma biografia política já suficientemente extensa, embora nem sempre imune às críticas. Fez uma escolha pragmática, como tantas outras que marcam sua trajetória.
COERÊNCIA
É possível criticar o senador sem recorrer a expedientes jornalísticos equivocados. Confúcio tem o direito de professar suas convicções, ainda que elas contrariem a maioria do eleitorado rondoniense. E contrariaram. Rondônia mantém um sentimento majoritariamente antilulista, realidade que ajuda a explicar o custo político de sua decisão. Lula, afinal, jamais venceu uma eleição presidencial no estado. Mas ele é coerente com o que defendeu no primeiro turno.
PREÇO
O senador conhecia esse cenário e, mesmo assim, escolheu um lado. Pagou o preço político pela decisão. Isso é da democracia: quem assume uma posição também assume as consequências. O que não se pode fazer é transformar o exercício de uma convicção em prova automática de incoerência.
DESONESTIDADE
A incoerência censurável é outra: dizer uma coisa nos bastidores e sustentar publicamente o contrário; vender uma convicção em particular e praticar outra diante das câmeras. Confúcio, goste-se ou não, assumiu sua posição e não parece interessado em disfarçá-la para agradar à plateia. Esta coluna nunca concedeu salvo-conduto ao senador. Foi crítica ao seu governo e continua livre para questionar suas escolhas. Mas independência jornalística também exige resistir ao coro dos que confundem divergência ideológica com desonestidade política.
LIVRE ARBÍTRIO
Não precisamos concordar com Confúcio Moura para reconhecer seu direito de pensar como pensa. A crítica é instrumento do jornalismo; a patrulha ideológica é expediente de quem gostaria de transformar a opinião alheia em delito.
RADAR
O período pós-eleitoral costuma ser fértil para investigações mais minuciosas na administração pública. A coluna não tem, por enquanto, elementos para precisar a extensão de eventuais irregularidades, mas há suspeitas de que setores como educação e saúde possam entrar no radar dos órgãos de controle. Ninguém sabe, ao certo, quando teriam ocorrido os possíveis descompassos legais, nem se de fato ocorreram.
ATUAÇÃO
O que se pode afirmar é que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) tem atuado diligentemente no controle externo, barrando ou questionando licitações milionárias diante de falhas identificadas nos editais e nas planilhas de custos. Nos últimos dois meses, quem acompanha os acontecimentos percebe uma atuação mais incisiva do órgão para assegurar que os certames sejam concluídos dentro da legalidade e com a eficiência exigida dos serviços contratados.
CONVENIÊNCIA
O detalhe que chama a atenção é o calendário. São contratos de milhões de reais, muitos deles em fase final de um governo que já tem prazo para deixar o poder. Parte dessas contratações envolve serviços que não são continuados e, portanto, poderia aguardar a chegada do governador legitimado pelas urnas, a quem caberá avaliar a conveniência, a oportunidade e a discricionariedade administrativa de cada iniciativa.
MALFEITOS
Não se trata de condenar antecipadamente ninguém. Até aqui, não há elementos que permitam cravar a existência de malfeitos. Mas a sucessão de questionamentos, somada aos valores envolvidos e à proximidade da troca de comando, recomenda atenção redobrada.
FINGIMENTO
Na administração pública, nem toda fumaça anuncia incêndio. Mas, quando os órgãos fiscalizadores precisam intervir repetidamente para corrigir o rumo de licitações milionárias, fingir que nada está acontecendo é um exercício de ingenuidade ou de conveniente cegueira.
CENÁRIO
A coluna não faz acusações. Registra fatos, observa movimentos e acompanha os desdobramentos. Quem conhece os caminhos da máquina pública sabe que, quando os órgãos de controle começam a apertar o cerco, o silêncio dos bastidores pode ser apenas a ante-sala de providências mais enérgicas.
Autor: | Fonte: www.rondoniadinamica.com