PESQUISA
A nova pesquisa Genial/Quaest traz um recado que os candidatos ao Senado em Rondônia deveriam ler com alguma atenção – antes que descubram, tarde demais, que campanha eleitoral não se faz apenas de fotografia com líder nacional, discurso inflamado contra o adversário ou postagem indignada nas redes sociais. O eleitor quer resultado.
ENTREGAS
Segundo a pesquisa, 31% dos brasileiros apontam como principal atributo de um candidato ao Senado a capacidade de levar emendas, recursos e obras para o Estado. É o item disparado na preferência. O apoio de Lula aparece com 15%; o fim da escala 6×1, com 13%; a independência da polarização, 12%; o impeachment de ministros do STF, 11%; e o apoio de Bolsonaro, apenas 8%. A fotografia é particularmente interessante para Rondônia, onde a eleição oferece duas cadeiras para um pelotão numeroso de candidatos.
ESTRATÉGIA
A pesquisa desmonta, pelo menos parcialmente, a tese de que a eleição para senador será exclusivamente um campeonato de bolsonarismo contra lulismo. A polarização continua importante, evidentemente. Mas o eleitor parece querer algo mais prosaico: um senador que tenha acesso a Brasília e consiga transformar essa influência em dinheiro, estrada, hospital, saneamento, infraestrutura e investimentos. Em outras palavras: o eleitor pode até gostar do senador que briga no plenário. Mas quer aquele que também aparece na fotografia da obra inaugurada. Isso muda a estratégia.
PRESTAÇÃO
Para candidatos que já exercem mandato federal, a campanha será inevitavelmente uma prestação de contas. Quantas emendas trouxeram? Que obras ajudaram a viabilizar? Que ministérios abriram portas? Que projetos efetivamente saíram do papel? O discurso de competência precisará encontrar provas no mundo real.
DESCONHECEM
A pesquisa também contém uma informação estratégica pouco explorada: apenas 34% dos entrevistados sabem que poderão votar em dois candidatos ao Senado. Outros 22% acreditam que votarão em apenas um e 34% não sabem responder. Esse desconhecimento pode ser decisivo em Rondônia onde o índice de quem não decidiu em quem votar é altíssimo. A eleição não será uma corrida de sobrevivência individual. Cada eleitor poderá escolher dois nomes. Isso permite combinações improváveis e, sobretudo, abre espaço para o chamado segundo voto. Um candidato pode não ser a primeira opção de determinado eleitor e, ainda assim, aparecer como a segunda escolha. É nesse território que a eleição pode ser ganha. E aí a pesquisa Quaest conversa diretamente com a realidade rondoniense.
CREDIBILIDADE
Se a capacidade de levar recursos é o atributo mais valorizado, os candidatos precisarão disputar não apenas votos, mas credibilidade para entregar resultados. Aquele que conseguir construir a imagem de senador útil ao Estado poderá capturar o segundo voto de eleitores que já tenham uma preferência ideológica definida. É uma péssima notícia para quem pretende transformar a campanha numa guerra de narrativas.
PRAGMATISMO
Ser de direita, ser de esquerda, ser bolsonarista, ser lulista, ser contra o STF ou ser contra a polarização pode ajudar a conquistar uma parcela do eleitorado. Mas a pesquisa indica que nenhuma dessas bandeiras supera a expectativa por obras e recursos. Até o apoio de Bolsonaro, uma das marcas mais cobiçadas por candidatos conservadores, aparece com 8%, enquanto a defesa do impeachment de ministros do STF chega a 11%. A capacidade de trazer recursos, entretanto, alcança 31%. Não significa que a ideologia morreu. Longe disso. Significa que o eleitor pode estar ficando mais pragmático.
REALIDADE
E pragmatismo, em política, é uma criatura bastante conhecida: pode passar quatro anos discutindo grandes questões nacionais e, na hora de votar, perguntar simplesmente quem trouxe alguma coisa para casa. Para os candidatos ao Senado em Rondônia, portanto, a pesquisa serve como um alerta. A campanha precisará sair um pouco do palanque nacional e voltar os olhos para a realidade estadual.
VALOR
BR-364, saúde, saneamento, energia, infraestrutura, agricultura, logística, educação e desenvolvimento regional são temas que podem valer mais votos do que uma dúzia de discursos sobre Brasília. A eleição ainda está começando. As pesquisas locais mostrarão quem largou melhor. Mas a Quaest ajuda a compreender uma coisa que números de intenção de voto não conseguem revelar sozinhos: o eleitor vai escolher dois nomes, mas quer uma razão concreta para escolher cada um deles. No Senado de Rondônia, talvez não vença apenas quem tiver o melhor padrinho político. Pode vencer quem convencer o eleitor de que, depois da eleição, será capaz de abrir a porta de Brasília e trazer alguma coisa de volta. Porque promessa todo candidato traz. Obra é que precisa chegar. Este é o mapa real que a pesquisa aponta neste momento, não é uma receita acabada, mas dá caminhos para novas reflexões.
SAÚDE
Não foi exatamente uma surpresa para ninguém que acompanha a política de Rondônia o diagnóstico pouco animador apresentado pelo Tribunal de Contas do Estado aos candidatos ao governo. Se alguém ficou espantado, provavelmente passou os últimos anos em alguma ilha paradisíaca, longe dos corredores dos hospitais públicos e, principalmente, do João Paulo II.
DIGNIDADE
A saúde pública é, disparadamente, uma das áreas mais deficitárias da administração estadual e aquela que mais diretamente bate à porta do cidadão. E não bate para pedir licença. Bate com a urgência de quem precisa de atendimento, exame, cirurgia, medicamento e, muitas vezes, simplesmente de uma vaga para ser tratado com um mínimo de dignidade.
PROMESSAS
O problema é que essa história não começou ontem. Nos últimos 12 anos, os políticos de Rondônia fizeram o que políticos fazem com especial desenvoltura: prometeram melhorar a saúde. Prometeram hospitais, equipamentos, atendimento digno, redução das filas e modernização da estrutura. A promessa, como se sabe, é o produto mais abundante da política brasileira. Não paga imposto, não exige licitação e pode ser renovada a cada eleição.
INCAPAZ
Enquanto isso, unidades hospitalares continuam enfrentando problemas conhecidos, com o João Paulo II convertido quase em monumento à incapacidade histórica do poder público de resolver aquilo que todo mundo sabe que precisa ser resolvido. Mas estas eleições apresentam uma circunstância particularmente interessante – e que merece ser explorada pelo eleitor.
TRIUNVIRATO
Os três últimos secretários estaduais de Saúde estarão na campanha, pedindo o voto e o apoio da população. Dr. Maiorquim, coronel Jefferson e Fernando Máximo ocuparam a cadeira mais importante da administração estadual na área da saúde. Conhecem, portanto, não apenas os problemas, mas também os bastidores, os números, as dificuldades administrativas e, sobretudo, as razões pelas quais tantas promessas não conseguiram virar realidade. É uma excelente oportunidade para que expliquem ao eleitor.
GRANA
Não se trata de fazer acusação gratuita, muito menos de transformar ex-secretários em réus de uma tragédia anunciada. Trata-se de uma questão elementar de responsabilidade política: quem comandou a saúde precisa ter algo a dizer sobre por que ela não chegou ao nível que a população esperava. E há um agravante que torna a pergunta ainda mais pertinente. Os três passaram pela secretaria em períodos nos quais a pasta contou com orçamento expressivo, reforçado inclusive por emendas parlamentares. Ou seja, não se pode resumir tudo à velha desculpa de que “faltou dinheiro”.
SOLUÇÃO
Se faltou dinheiro para determinada ação, que expliquem. Se faltou gestão, que expliquem. Se houve entraves burocráticos, que expliquem. Se o problema estava na estrutura, que expliquem. E se alguma coisa foi feita e não produziu o resultado esperado, que expliquem também. O eleitor não precisa de milagres. Precisa de respostas.
NÚMEROS
Agora, as promessas serão renovadas pelos candidatos ao governo. E deverão mesmo ser renovadas, porque seria absurdo imaginar que alguém possa disputar o Palácio sem apresentar uma proposta séria para a saúde. A diferença é que, desta vez, há uma pequena novidade no roteiro: ninguém poderá alegar desconhecimento da situação fiscal e financeira do Estado. O TCE colocou os números sobre a mesa. E número, ao contrário de discurso de palanque, não se comove com aplauso.
PREVISÕES
O diagnóstico dos burocratas daquela Corte é preocupante, mas não precisa ser tratado como o anúncio do Armagedom fiscal. Já vi muitos diagnósticos produzidos pelo próprio Tribunal de Contas carregados de advertências severas, previsões sombrias e cenários que pareciam anunciar a chegada dos quatro cavaleiros do Apocalipse. Nem todos os desastres previstos chegaram a se materializar. Isso não significa, evidentemente, que se deva jogar o relatório numa gaveta e voltar à velha política do “depois a gente resolve”. O diagnóstico merece ser estudado com seriedade, sobretudo pelos candidatos que pretendem governar o Estado pelos próximos quatro anos.
PLANEJAMENTO
E há uma razão simples para isso: não existe dinheiro sobrando no cofre para financiar todas as promessas que cabem num programa eleitoral. O orçamento tem limites, a despesa tem limites e até a criatividade dos marqueteiros deveria ter algum. Rondônia possui uma economia robusta em diversos setores e tem condições de continuar crescendo. Mas robustez econômica não é salvo-conduto para irresponsabilidade fiscal. A máquina pública precisa de ajustes, planejamento e, sobretudo, capacidade de executar bem e rapidamente os recursos disponíveis.
RETÓRICA
Porque existe também um fenômeno curioso na administração pública brasileira: às vezes há dinheiro, mas falta capacidade para transformar orçamento em obra, contratação, atendimento e serviço. O recurso fica parado, o cidadão continua esperando e o governante aparece depois para anunciar que “está trabalhando”. Na saúde, esse truque retórico já não engana ninguém. E é justamente por isso que a presença dos três ex-secretários na disputa eleitoral torna esta eleição particularmente interessante.
EXPLICAÇÕES
Eles não chegam à campanha como comentaristas de arquibancada. Chegam com experiência de quem esteve dentro do campo, sentou na cadeira, assinou documentos, administrou orçamento e conheceu de perto as dificuldades da máquina. Terão, portanto, uma oportunidade extraordinária de explicar ao eleitor o que fizeram, o que não conseguiram fazer e, principalmente, o que fariam diferente se tiverem novamente poder para decidir.
Por Robson Oliveira