‘Mercado nervoso? Mercado sensível? Um mito ameaçador para democracias juvenis’, por Vinícius Miguel

A racionalidade científica vence mitos. Ou deveria derrotá-los.

Por Vinicius Valentin Raduan Miguel

 

A racionalidade científica vence mitos. Ou deveria derrotá-los.

Apontado tal elemento, não existe a abstração idealizada pela “opinião publicada”: “Mercado” não é sujeito (nem de direitos) e tampouco entidade senciente.

Menos ainda, há uma estrutura única e estática, capaz de responder de modo imediato.

Há um significante oculto nesse desejo de players político-econômicos: um argumento falacioso de apelo à autoridade (de personalidade marcadamente autoritária).

Só ungidos e escolhidos sabem como o tal Deus Mercado opera.

Só eles sabem quais sacrifícios saciam e aplacam o furor desse Deus-Demônio!

Fora do seleto grupelho, de sua diminuta seita, não há como compreender os desígnios dessa cabala.

Do repertório sádico que apascenta o diabólico ser, revolvem-se alternativas historicamente experimentadas e continuadas:

Seria o jejum prolongado de crianças sem alimentação adequada entregues até mesmo à falência por inanição?

Seria a imolação de pessoas em chamas ao tentar cozinhar com álcool por falta de botijas de gás?

Seria o faquirismo em noites gélidas nas ruas, sem cobertas e vestimentas, entregando os corpos ao ritual da hipotermia?

Ou seria o holocausto de 700 mil pessoas por ausência de vacinação oportuna?

Repensar e refundar Estado e Sociedade é um desafio premente. Se faz com racionalidade de que recursos são prioritários para salvar vidas.

A transição de governos não pode ser um cassino para os grupos de interesses econômicos, lucrando com volatilidades cambiais e econômicas artificialmente produzidas.

Não só fazem das readaptações balcão de apostas, como tentam impor consensos sobre os nomes dos sacerdotes à reger os rituais sacrificiais que exigem, sempre, de grupos em vulnerabilidade.

É preciso seriedade de tais atores. A dosagem de honestidade intelectual e ético-política precisa ser recíproca àquela que demandam da Política Econômica vindoura. Se exigem de novel Governo compromisso, devem se compromissar e não almejar o saque.

A sociedade, famílias e atores do mundo do consumo precisam de soluções para questões concretas e materiais que afetam o mais básico de suas existências: combate à fome e pobreza, redução de desigualdades sociais e assimetrias regionais, emprego de qualidade, renda básica, direitos e oportunidades.

Trata-se de temário para a própria sobrevivência. Não há Economia ou Deus Mercado que possa continuar a operar em dicotomia e negação à vida.

Uma remodelagem organizacional da relação Estado e Economia que insira na agenda e orçamento o atendimento de necessidades humanas, com coerência socioambiental e justiça social é o que deve comover os seres, sujeitos e o partícipes do sistema econômico.

A hipersensibilidade de um Outro inexistente não pode ser uma espada de Dâmocles ameaçando os potenciais emancipatórios e de liberdades de uma sociedade.

*O autor é advogado, sociólogo. Especialista em Administração Pública (CIPAD-FGV). Doutor em Ciência Política (UFRGS). Diferente do Mercado, fica nervoso com atrasos e sensível à desorganização e desmarcação de agendas.

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