Enquanto o Brasil de 2025 alcançou a menor taxa de mortes violentas em mais de uma década, Rondônia seguiu na direção contrária. É o que mostra o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública: o estado registrou 493 mortes violentas intencionais (MVI) no ano, ante 457 em 2024 — uma alta de 7,5%. Com isso, Rondônia entrou no grupo de apenas sete unidades da federação onde a violência letal cresceu, num ano em que a média nacional caiu 8,2%.
O dado que explica a alta
A elevação não veio dos homicídios comuns. Os homicídios dolosos em Rondônia ficaram praticamente estáveis, passando de 433 para 439 casos. O que empurrou a curva para cima foi outro indicador, mais sensível: as mortes decorrentes de intervenção policial. Elas saltaram de 8 registros em 2024 para 47 em 2025 — um crescimento que o próprio Anuário classifica como “emblemático”.
Em termos proporcionais, essas mortes passaram a representar 9,5% de todas as mortes violentas do estado — parcela suficiente, segundo o relatório, para influenciar a tendência geral e jogar Rondônia para o campo dos estados em alta. Em outras palavras: a violência que subiu em Rondônia tem, em boa medida, a assinatura da ação estatal.
Rondônia no mapa nacional
O desempenho coloca o estado em posição desconfortável no ranking. Com taxa de 28,1 mortes violentas por 100 mil habitantes, Rondônia figura entre as três unidades da região Norte com as maiores taxas do país — ao lado de Amapá e Pará —, num patamar bem acima da média nacional, de 19,1 por 100 mil. A região Norte, como um todo, tem a segunda maior taxa de violência letal do Brasil, atrás apenas do Nordeste.
As mortes por intervenção policial em Rondônia quintuplicaram em um ano: de 8 para 47.
O que o número não diz — e por que isso importa
Aqui é preciso rigor. O Anuário adverte que parte das mortes por intervenção policial pode decorrer do uso legítimo da força, e que os dados disponíveis não permitem distinguir, caso a caso, quais mortes foram legítimas e quais não foram. Justamente por isso, o Fórum defende que todas essas ocorrências sejam submetidas a mecanismos de controle: uso ininterrupto de câmeras corporais, fiscalização pelas corregedorias e acompanhamento externo pelo Ministério Público.
O ponto do relatório é estrutural, não acusatório: quando a letalidade policial cresce a esse ritmo, deixa de ser um detalhe estatístico e passa a ser uma questão de política pública que exige transparência e responsabilização — sob risco de o Estado se tornar parte do problema que deveria combater.
Um alerta em ano eleitoral
O recorte de Rondônia chega num momento em que a segurança pública desponta como principal preocupação do brasileiro e tema central do debate eleitoral de 2026. Para o eleitor do estado, o dado do Anuário oferece um contraponto valioso ao discurso fácil: a violência local não cedeu como no resto do país, e o fator que a puxou para cima pede uma conversa mais complexa do que o binômio “mais dura ou mais branda”. A pergunta que fica para quem disputa o voto rondoniense é direta: que política de segurança explica um salto de 8 para 47 mortes pela polícia em doze meses — e quem se dispõe a olhar para esse número sem transformá-lo em bandeira?
Autor: | Fonte: painelpolitico.com