[[IMG]]
URL: https://painelpolitico.com/uploads/imagens/20260910_104533_46ef3b1b66.jpg
LEGENDA: 📷 Reprodução e Câmara dos Deputados
[[/IMG]]
A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram nesta quinta-feira (10) a Operação Make Up, com o cumprimento de 49 mandados de busca e apreensão relacionados ao financiamento do filme “Dark Horse”, que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A ação não tem mandados de prisão. Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-secretário especial da Cultura, e a produtora Karina Gama, além de duas entidades ligadas a ela — o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC).
O caso está sob relatoria do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal; o inquérito tramitava em São Paulo e foi avocado para a Corte.
O que a PF investiga na Make Up
Segundo a investigação, uma organização criminosa formada por agentes públicos e privados teria direcionado recursos públicos — repassados a uma organização da sociedade civil — para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação de que os serviços foram efetivamente prestados. A PF afirma ter identificado movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas ligadas ao suposto esquema, e sustenta que as tentativas de ocultar os desvios se estenderam até julho deste ano. Os crimes apurados são peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
No centro da ação está uma emenda parlamentar específica: uma auditoria da CGU apontou suspeita de desvio de uma emenda de R$ 2 milhões indicada por Frias para as entidades de Karina, com gastos não comprovados. É o fio que ligou o deputado à operação.
Duas investigações, dois ministros
Aqui é preciso organizar a teia, porque há duas apurações distintas sobre o mesmo filme, sob dois relatores do STF:
A primeira, com Flávio Dino (a da operação de hoje), concentra-se no possível uso irregular de emendas parlamentares e dinheiro público que chegou às entidades e empresas ligadas à produtora.
A segunda, com André Mendonça, examina os repasses privados feitos pelo ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro a pedido de Flávio Bolsonaro, e o caminho que esse dinheiro percorreu. São trilhas separadas — uma segue o dinheiro público (emendas), a outra o dinheiro privado (Vorcaro) — que convergem no mesmo destino: o financiamento do longa sobre Bolsonaro.
O financiamento pela via Vorcaro
A frente sob Mendonça ganhou peso nas últimas semanas. Em maio, o site Intercept Brasil revelou mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência, cobrava dinheiro de Vorcaro — ex-dono do Banco Master, preso na Operação Compliance Zero — para financiar o filme. Segundo a reportagem, Vorcaro teria pago ao menos R$ 61 milhões em 2025, transferidos para um fundo nos Estados Unidos administrado por um advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
A delação que abriu o jogo
E, na quarta-feira (9), veio o desdobramento que amarra as pontas: Mendonça homologou a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos — empresa que, a mando de Vorcaro, fez os repasses para o filme.
Na delação, assinada com a PGR em 8 de agosto, Mineiro afirmou que era responsável por “gerar” dinheiro vivo para a equipe de Vorcaro, entregue em malas e, segundo ele, usado para pagamentos de propina. Detalhou ainda sete repasses, a título de “subscrições de cotas”, para o fundo Havengate nos EUA, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. As transações, de janeiro a setembro de 2025, somaram US$ 12,333 milhões — cerca de R$ 62,8 milhões pela cotação da época.
Um detalhe da delação contradiz a versão pública de Flávio: o senador vinha afirmando que o último pagamento de Vorcaro fora em maio de 2025, mas há um repasse registrado em setembro (US$ 1,666 milhão). A PF investiga se todo o dinheiro foi de fato usado no filme — como afirmam Flávio e a produtora Go Up — ou se parte foi destinada a outros fins, como bancar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
O que está em jogo
As duas operações desenham um cerco em torno do financiamento de “Dark Horse” que mistura dinheiro público e privado, e que alcança nomes no topo da política nacional em pleno ano eleitoral — de um deputado federal a um candidato à Presidência e seu irmão. Vale o registro de rigor: trata-se de investigações em curso, sem denúncia formalizada nem condenação; a operação de hoje é de busca e apreensão, e todos os citados têm direito de defesa e negam irregularidades. A delação de Mineiro, por sua vez, é meio de prova a ser corroborado — não condena, por si só, ninguém.
O que a sequência de fatos torna inegável é a dimensão do caso: um filme sobre um ex-presidente virou o centro de duas investigações do Supremo, com movimentações que somam centenas de milhões, um delator que fala em malas de dinheiro e um rastro que cruza a fronteira rumo a um fundo nos EUA. A pergunta que as próximas semanas devem responder é até onde a apuração chega — e se o que começou como a bilheteria de um longa acabará escrito nos autos como algo bem mais grave.
Versão em áudio disponível no topo do post.
Autor: | Fonte: painelpolitico.com