Senado em Rondônia: a eleição que a fotografia não mostra

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Há um vício antigo na cobertura eleitoral brasileira, e setembro é a temporada alta dele. Sai um levantamento, o número vira manchete, a manchete vira consenso e, em três dias, meia Rondônia já está repetindo que a disputa pelo Senado acabou. Eu discordo. E discordo com o próprio boletim técnico da pesquisa na mão.

O que a margem de erro realmente diz

Comecemos pelo que ele diz de fato. Mariana Carvalho, Silvia Cristina e Fernando Máximo, separadas por cinco pontos. A margem de erro do levantamento é de três pontos e um décimo, para mais ou para menos. Quem já leu uma ficha técnica sabe o que isso significa: a distância entre os três é menor do que a imprecisão do próprio instrumento que a mediu. Chamar isso de vantagem é forçar a estatística a dizer o que ela não disse.

Os indecisos que ninguém contabiliza

Acrescente-se a isso o contingente que nenhum candidato controla: perto de um quarto dos entrevistados não escolheu ninguém, ou pretende anular. Em agosto, quando a pergunta foi feita sem lista de nomes na frente do eleitor, mais de oitenta por cento não souberam responder. É gente suficiente para reordenar a disputa inteira em quinze dias.

Duas vagas, não uma corrida só

Falta ainda o elemento que mais confunde análise apressada em eleição senatorial: são duas vagas. Cada eleitor marca dois nomes, e o vice-colocado toma posse igual ao primeiro. Não existe consolação aqui. Existe uma corrida pela segunda cadeira que hoje tem três pretendentes vivos e nenhum dono. Todo o resto é ruído.

O voto que a pesquisa não fotografa

Há também aquilo que pesquisa nenhuma alcança em setembro. Mariana Carvalho chega a esta disputa sobre uma base de duzentos e sessenta e três mil votos construída em 2022, e voto assim tem CEP. Nasceu da ambulância que apareceu na porta do posto, do implemento agrícola que destravou a safra de uma associação, do equipamento que fez o hospital do interior funcionar na pandemia. Quem acompanha eleição em Rondônia há tempo suficiente sabe o comportamento desse eleitorado: ele demora a associar o benefício ao nome de quem o viabilizou, mas quando associa, não muda mais. Aparece tarde no gráfico e cedo na apuração.

Uma capital sem representação

Menciono por fim uma esquisitice que a política local naturalizou e deveria incomodar mais. Os três senadores de Rondônia vêm de Ariquemes, Vilhena e Ji-Paraná. A capital, que responde por perto de trinta por cento do eleitorado estadual, não tem ninguém. Entre os competitivos deste pleito, apenas uma candidata construiu a trajetória em Porto Velho. Se a cidade decidir corrigir a própria distração, a correção não vem diluída, vem em bloco.

Chamar isso de vantagem é forçar a estatística a dizer o que ela não disse.

Registro o óbvio antes que alguém me atribua profecia: não estou garantindo nada a ninguém, e é precisamente esse o argumento. Pesquisa é retrato de dois dias de campo, não certidão antecipada de posse. A eleição de outubro não está escrita em lugar nenhum.

O que está escrito é o histórico de cada um. E, numa disputa em que tudo cabe dentro da margem de erro, esse costuma ser o desempate.

Muryllo Ferri Bastos é advogado

Versão em áudio disponível no topo do post.

Autor: | Fonte: painelpolitico.com

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