Transição propõe R$ 300 milhões para compra de máquinas; Rogério é alertado sobre risco aos fundos estaduais; e Massud deixa a Educação
A íntegra da coluna redigida por Robson Oliveira
DIGNÓSTICO
A equipe de transição coordenada pelo deputado federal Lúcio Mosquini já identificou gargalos que comprometem a infraestrutura de Rondônia. Um deles é a locação de máquinas pelo DER, que onera os cofres públicos e limita a capacidade de manutenção das estradas.
PERDULÁRIO
A proposta apresentada ao governador eleito Marcos Rogério é um aporte inicial de R$ 300 milhões para aquisição de equipamentos, seguido de novos investimentos anuais para estruturar as residências regionais. A lógica é simples: menos aluguel, mais máquinas próprias e melhores estradas. Representante do setor produtivo, Mosquini sabe que a economia estadual depende de uma malha viária eficiente. Em conversa com a coluna, resumiu outro problema do diagnóstico: o governo gasta muito e gasta mal. Diárias e passagens, segundo ele, ultrapassam R$ 20 milhões mensais.
EQUIPE
A proposta é cortar essas despesas drasticamente. A situação mais delicada, porém, está na saúde, onde faltam recursos para atender às demandas. Marcos Rogério já anunciou uma equipe emergencial de crise para buscar soluções imediatas.Mosquini observa que a arrecadação cresce, mas as despesas correntes dispararam nos últimos oito anos. O desafio será conter a máquina pública sem ultrapassar os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal.
GESTÃO
Os trabalhos avançam e a sistematização deverá ficar pronta nas próximas semanas. O diagnóstico está sendo desenhado. Resta transformar números em decisões. Porque governar não é apenas arrecadar mais: é aprender a gastar melhor.
SUSPEITAS
A Mensagem nº 261, encaminhada pelo governador Marcos Rocha à Assembleia Legislativa sob o pretexto de reformulação orçamentária, levanta suspeitas que merecem ser examinadas com lupa. Apelidada nos corredores políticos de mensagem “guarda-chuva”, pela falta de informações concretas sobre as rubricas e a destinação dos recursos, a proposta pode abrir caminho para que o Executivo promova alterações orçamentárias por decreto, sem o devido conhecimento e controle dos parlamentares.
ROMBO
O que deveria ser uma operação de transparência fiscal pode se transformar numa autorização genérica para movimentar recursos públicos. Nos bastidores, a preocupação é que a proposta permita remanejar verbas dos fundos estaduais para socorrer a Saúde, cuja situação financeira apresenta um rombo preocupante, atribuído a problemas de gestão que precisam ser esclarecidos. Se essa hipótese se confirmar, o contribuinte poderá assistir a uma espécie de faxina no caixa estadual, com dinheiro de outras áreas sendo utilizado para cobrir despesas que o governo não conseguiu administrar adequadamente.
FUNDOS
O alerta não é trivial. A situação econômica de Rondônia ainda não é desesperadora, mas a engenharia orçamentária em discussão pode produzir consequências graves para a próxima administração. O governador eleito, Marcos Rogério, precisa abrir os olhos. Uma coisa é receber um Estado com dificuldades administrativas e financeiras; outra, bem diferente, é assumir em janeiro com os fundos esvaziados, contratos continuados sem cobertura orçamentária e compromissos herdados sem dinheiro suficiente para honrá-los.
TRANSPARÊNCIA
O governador Marcos Rocha tem o dever de explicar, com números e documentos, quais recursos pretende movimentar, de onde sairão e para onde serão destinados. A Assembleia Legislativa, por sua vez, não pode entregar um cheque em branco ao Executivo sob o argumento de facilitar a gestão. Fiscalizar o orçamento não é um capricho parlamentar, mas uma obrigação constitucional.
OBSCURIDADE
No Legislativo, o deputado estadual Delegado Camargo, vice-governador eleito, acompanha de perto essa movimentação durante a transição e promete erguer trincheiras contra o que considera uma aberração orçamentária. Até 1º de janeiro, continua investido no mandato parlamentar e tem instrumentos para cobrar explicações, mobilizar colegas e impedir que uma autorização genérica seja transformada em salvo-conduto para movimentações obscuras.
CAIXA
Marcos Rogério não pode esperar a posse para descobrir o tamanho do problema. A transição serve justamente para impedir que o novo governo receba surpresas embrulhadas em papel oficial. Governar até o último dia é um direito; comprometer o caixa do sucessor sem transparência é outra história. A mensagem guarda-chuva pode até proteger alguém da chuva política. O que não pode é servir de cobertura para uma operação de transferência de recursos sem clareza sobre seus efeitos.
NEBULOSO
A exoneração de Massud Badra da Secretaria de Estado da Educação tem menos cheiro de troca administrativa do que de derrota da competência diante das conveniências políticas. Segundo apurou a coluna, o secretário teria resistido a pressões de setores políticos para acelerar processos de aquisição de livros, plataformas digitais e serviços de capacitação, apesar dos óbices apontados pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Marcos Rocha não precisa no final do governo capitular para uma suposta banda podre. E flerta com o perigo.
GESTAÇÃO
Três processos estão no centro das informações obtidas pela coluna. O primeiro, no valor de R$ 116.099.082,00, trata do Sistema Integrado de Ensino e Recomposição da Aprendizagem, registrado no SEI sob o nº 0029.043942/2026-10 e no TCE sob o nº 02486/26. O segundo, de R$ 12.635.470,60, refere-se à Sistematech (SPECK/SAGE), processo SEI nº 0020.013328/2026-03, com registro no TCE nº 02187/26. O terceiro, no valor de R$ 4.497.432,81, envolve a Febracis, para capacitação de servidores, no processo SEI nº 0020.016676/2026-24, registrado no TCE sob o nº 03174/26. Há um outro em gestação para pequenas bibliotecas nas escolas, mas o objetivo ao que parece não é leitura.
OCULTOS
Juntos, os três processos somam R$ 133.231.985,41. Segundo informações obtidas pela coluna, dois deputados estaduais em posições chaves teriam interesse no andamento dessas contratações. Não se trata de afirmar irregularidades consumadas, mas de cobrar explicações sobre os procedimentos, os questionamentos do órgão de controle e as pressões políticas que teriam cercado as decisões.
CONSUMAÇÃO
Uma fonte próxima ao governador Marcos Rocha voltou a confirmar ao cabeça-chata que o próprio chefe do Executivo havia comentado a existência dessas pressões. Massud, aliás, já antecipava desde a semana passada, quando cumpria missão oficial em Brasília, que sua permanência no cargo estava por um fio. Ainda houve tentativa de mantê-lo até o fim do mês. Não deu. A exoneração foi consumada anteontem.
PRESSA
Maurício Carvalho, nova eminência parda de Rocha, chegou a ser acionado para tentar segurar a dispensa e, segundo os relatos colhidos pela coluna, prometeu intervir. Ao final, prevaleceu a exoneração. A política, mais uma vez, mostrou que costuma ter pressa quando há interesses em jogo, mas raramente demonstra a mesma urgência quando o assunto é melhorar a qualidade do ensino.
CREDENCIAIS
O substituto é um cabo da Polícia Militar. Nada contra a patente, que merece respeito dentro da carreira militar. O problema não está na farda, mas na qualificação exigida para comandar uma das áreas mais estratégicas da administração pública. Ao examinar o currículo do novo secretário, a coluna não identificou, até aqui, elementos suficientes para compreender a escolha sob o ponto de vista técnico. Cabe ao governo apresentar as credenciais que justifiquem a nomeação.
CRITÉRIO
Educação não é repartição para acomodar aliados, distribuir agrados ou resolver equações de conveniência. Exige experiência, conhecimento pedagógico, capacidade de gestão e compromisso com resultados. Quando um profissional qualificado sai em meio a suspeitas de pressão política e é substituído por alguém cuja adequação técnica ainda precisa ser demonstrada, a sociedade tem o direito de perguntar: qual foi o critério?
CABO
Se a intenção era valorizar o novo secretário, o governo começou pelo pior caminho: deixou dúvidas no lugar das explicações. E, quando a administração pública não esclarece suas escolhas, a suspeita ocupa o espaço reservado à transparência. Talvez o cabo pudesse prestar relevantes serviços na área da segurança pública, onde a população também cobra resultados diante do avanço da violência. Afinal, se os comandos atuais não conseguem entregar a resposta esperada, é legítimo discutir a eficiência da estrutura. Mas isso não significa que a Secretaria de Educação deva servir de laboratório para improvisações administrativas.
CONTORNOS
O episódio deixa uma pergunta ainda mais grave: Massud Badra foi exonerado por deficiência de gestão ou por não ter cedido à pressões políticas? Se foi a segunda hipótese, o governador precisa explicar por que a resistência técnica teria custado o cargo ao secretário, enquanto os interesses supostamente contrariados permanecem sem esclarecimento. Marcos Rocha tem o dever de esclarecer os fatos, os critérios da exoneração e as circunstâncias que envolveram os processos. O TCE, por sua vez, deve ter seus apontamentos respeitados, não tratados como obstáculos burocráticos a serem contornados.
MOEDA
A educação de Rondônia já enfrenta desafios demais para ainda precisar disputar espaço com interesses de bastidores. Livro didático não pode virar moeda política, plataforma digital não pode servir de passaporte para influência e capacitação de servidores não pode ficar acima do escrutínio público.
PERDAS
A pergunta que fica é simples: quem perdeu com a saída de Massud Badra? Se perdeu apenas o governo, o prejuízo será administrativo. Se perdeu a educação pública, a conta será paga por alunos, professores e famílias. E esses, ao contrário dos personagens dos gabinetes, não têm poder para pressionar o governador. Na política de Rondônia, pelo visto, a técnica pode até entrar pela porta da frente. O problema é que, quando incomoda os interesses certos, acaba saindo pela porta dos fundos.
ASSÉDIO
O governador Marcos Rogério avisou a coluna que não vai antecipar nenhum nome da equipe de primeiro escalão para evitar assédio político. Os nomes especulados pela imprensa, segundo ele, são meras conjecturas e podem não ser confirmados na lista final. A ideia é designar para as funções pessoas com capacidade técnica e administrativa.
RESENHA POLÍTICA
ROBSON OLIVEIRA
