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Douglas Souza, sem medo de ser feliz: “Eu levanto bandeira, sim”

Em relato aberto ao ge, jogador de vôlei fala sobre infância, afirmação como homossexual e preconceito até se firmar como um dos maiores talentos da modalidade

Em relato aberto ao ge, jogador de vôlei fala sobre infância, afirmação como homossexual e preconceito até se firmar como um dos maiores talentos da modalidade

Eu tive uma infância muito tranquila. Nasci em Santa Bárbara D´Oeste, no interior de São Paulo. Sempre fui muito próximo e ligado à minha família. Brincava muito com o meu primo, que era como um irmão. Foi uma infância muito legal, bem de interior, de brincar até tarde no meio da rua, de queimado. Inclusive, jogava vôlei no meio da rua.

Foi na infância que eu me aproximei do vôlei. Eu era muito alto. Precisava praticar esportes e me movimentar por causa da bronquite. Então, já fiz de tudo um pouco, todos os tipos de esporte. Fiz ginástica, handebol, capoeira e tentei um monte de coisas até chegar no vôlei. E eu fiquei. Estava muito na moda na época, logo depois de 2008, das Olimpíadas. Foi quando eu me apaixonei e segui jogando.

Douglas Souza na infância – Arquivo pessoal

Eu tinha muitos amigos da rua. A minha avó morava em uma rua sem saída. Ficava uma criançada brincando o dia inteiro, principalmente nos finais de semana, já que, durante a semana, todos nós estudávamos. No sábado e domingo, eu ficava o dia inteiro. Ia às 9h da manhã e só voltava para casa às 10h da noite, com a minha avó me buscando.

Eu sempre soube que gostava de menino. Só não ligava muito para isso porque não achava que era a coisa mais importante do mundo. Acho que ali na pré-adolescência, adolescência, quando você já começa a ter interesse de se relacionar com outras pessoas, foi quando eu percebi, mas eu já sabia. Para mim, sempre foi muito tranquilo.

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Douglas Souza na infância – Arquivo Pessoal

Não contei para a minha família logo de cara. Como eu falei, eu não achava que era uma coisa muito importante. Saí de casa muito cedo, com 14 anos de idade, e fui morar em São Paulo. Eu tinha outras prioridades na minha vida além de me preocupar em contar para os meus pais de quem eu gosto. Eu não tinha muito essa vibe, não. E depois foi muito tranquilo. Eu cheguei em casa namorando um menino e não parei para contar que sou gay. Foi super natural, do jeito que tem que ser.

Não sei exatamente quando foi que comecei a me afirmar homossexual abertamente. Foi como eu falei. Eu nunca neguei nada para ninguém. Sempre fui muito transparente na vida. Então, sei lá, desde sempre. Não tem uma idade para falar de quando eu me afirmei para as pessoas. Eu sempre fui.

Douglas Souza na infância – Arquivo pessoal

Eu acho que o preconceito está enraizado na sociedade, infelizmente. Então, claro que já passei por isso. Até hoje tem umas olhadinhas, uns olhares, um jeitinho diferente. Mas é uma coisa que a gente precisa descontruir com o tempo. É uma coisa que a gente precisa lutar diariamente.

Eu vejo o esporte levemente mais aberto. Não é a coisa mais aberta do mundo, mas mais do que antigamente, lógico. Porque, pelo amor de Deus, a tendência é a evolução, né? A gente não pode regredir nunca. Com certeza é mais aberto hoje, mas também não é toda liberdade do mundo, não.

Douglas Souza com o namorado, Gabriel – Reprodução

Eu levanto bandeira, sim. Nas minhas redes sociais, sempre tem coisas lá em dias comemorativos, em dias de luta. Eu me posiciono sempre em prol da comunidade, me posiciono só de estar na seleção, de dar a minha cara a tapa para todo mundo. Mas a conscientização das pessoas é muito importante para que as pessoas entendam que nós somos iguais a todo mundo. Não queremos nenhum tipo de privilégio. Queremos ser tratados igualmente, ter os mesmos direitos e oportunidades.

Sendo quem eu sou hoje, tudo que eu posso conquistar na minha vida e tudo que eu já conquistei, sei que sirvo como exemplo para muitos. Porque é o que eu quero ser. Na minha época, eu não tinha um exemplo. Não tinha alguém como eu sou hoje na seleção para olhar e falar: “Olha, que legal, se fulano chegou, eu posso chegar também”. Sabe?

Estando na seleção há tanto tempo, há tantos anos, e conquistando tudo que eu conquistei com o meu trabalho duro, eu acho que isso é, com certeza, um exemplo. E pode ajudar, sim, a pessoas que vão vir atrás de mim. Sem medo de ser feliz, de serem elas mesmas, de preconceito. E lutar junto. Sempre.

Douglas Souza, na infância e na seleção de vôlei

Via Globoesporte.com

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